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PASTORAL VOCACIONAL NO BRASIL
ELEMENTOS PARA COMPREENDER O PROCESSO HISTÓRICO DE RENOVAÇÃO À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II
Desde a sua fundação em 1952 por Dom Hélder Câmara, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi influenciada pelo impacto de renovação suscitada pelos movimentos de Ação Católica. O método ver-julgar-agir, da Juventude Operária Católica (JOC), está na raiz daquela prática renovadora. A simplicidade do método e sua capacidade de operacionalizar decisões de equilíbrio entre Fé e Vida fizeram dele o embrião de todo processo futuro de planejamento pastoral. Este processo tornou-se o instrumento fundamental da vida e ação da CNBB.
O clima criado pelo Concilio Vaticano II estimulou a vitalidade da CNBB, fundada numa forte perspectiva de promover o efetivo vínculo colegial entre os bispos. Havia um grande esforço comum para começar a levar à prática os ensinamentos do Concílio.
Em nível latino-americano, a reunião da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM) em Medellín[1], na Colômbia, motivada pelo espírito Concílio Vaticano II e realizada em 1968, foi outro marco no processo de renovação da Igreja, “convocada a se converter aos pobres”[2].
Todo esse período foi para a CNBB uma profunda experiência de vida onde os fatos e as pessoas se entrelaçaram pela vontade eficaz de renovar a presença evangelizadora da Igreja, num amplo processo de comunhão e participação.[3] A Assembléia Geral realizada em Roma em 1964 assumiu o Planejamento Pastoral[4] como instrumento de renovação[5] da Igreja no Brasil. O Plano de Pastoral de Conjunto (PPC) consagrou o processo de Planejamento Pastoral. Ele tornou-se também o instrumento eficaz para o entrelaçamento da CNBB com a religiosidade do povo e os movimentos sociais.
O PPC procurava realizar projetos que integrassem os três passos - realidade, reflexão e ação - e, ao mesmo tempo, levassem a olhar todos os aspectos da vida humana e da missão da Igreja. Consagram-se as chamadas seis linhas de ação (unidade da Igreja, ação missionária, catequese, ação litúrgica, ecumenismo e presença da Igreja no mundo), especificam-se e enfatizam-se a unidade e a diversidade na ação pastoral, bem como a interligação das várias ações pastorais.
É a partir deste processo de planejamento, integrando a unidade e a variedade das ações pastorais, que se pode melhor entender o processo de renovação da Pastoral Vocacional à luz das grandes opções do Concílio Vaticano II, face aos desafios da realidade do contexto histórico, atenta aos sinais que surgem da sociedade brasileira.
O processo de renovação da Pastoral Vocacional começa com os projetos de reflexão a respeito da Teologia da Vocação. O PPC já previa algumas iniciativas nesse sentido. Mas é sobretudo com as iniciativas do I Plano Bienal dos Organismos Nacionais (1971-1972) e do II Plano Bienal (1973-1974) que ele se fortalece. Fecha-se um ciclo importante de reflexão, quando então se inicia uma fase mais operacional e pastoral propriamente dita.
O contexto teológico-pastoral no período pós-conciliar é marcado pela renovação da eclesiologia à luz da Lumen Gentium. A Igreja se redescobre como Povo de Deus, através da sua vocação comum e universal à santidade, vocação essa fundamentalmente serviço à humanidade. Quem se sente chamado assume “as alegrias e esperanças”, mesmo dos que estão distantes. A Gaudium et Spes estimula essa atitude de serviço ao enfatizar a dimensão de diálogo com o mundo e a realidade.
O clima de renovação teológico-pastoral enfatiza a importância das condições prévias para aparecimento e amadurecimento dos serviços. Igualmente toda a Igreja assume a importância do processo de educação da fé como sendo o elemento básico e renovador.
Os primeiros anos do PPC e, posteriormente, os planos Bienais enfatizam os projetos de reflexão teológica e pastoral onde são aprofundados os aspetos inerentes à pastoral vocacional. Explicita-se o que significa criar condições prévias para o surgimento das vocações mediante o processo de educação da fé.
Foram realizados vários encontros, quer em nível nacional, quer regional ou inter-regional e mesmo latino-americano onde se desenvolveu um pensamento comum sobre a nova Teologia da Vocação.
A base dessa renovação é a reflexão bíblico-teológica que introduz na questão vocacional a estrutura do diálogo. O cerne de todas as discussões está na ênfase dada à compreensão da vocação como chamado e resposta.
Até então, historicamente, as categorias com as quais se trabalhava diziam mais respeito ao chamado pessoal direto de Deus ao vocacionado. Não se dava especial destaque às condições históricas nem os apelos dos sinais visíveis de uma comunidade de fé atuante.
A compreensão do conceito teológico vocação passa a ser entendido num amplo horizonte como resultado desse esforço de reflexão desenvolvido no âmbito do planejamento pastoral. Recuperam-se duas categorias fundamentais: o chamado universal à santidade de todos e cada um, chamado esse que também implica numa resposta específica, individualizada e pessoal.
Chamado e resposta passam a ser e a garantir a estruturação básica do conceito de vocação. É a partir dessa estrutura dialogal que se desenvolve todo esforço de renovar e clarificar a noção de Vocação.
De imediato surgem algumas conseqüências práticas para a Pastoral Vocacional. Torna-se importante o lugar onde amadurecem as respostas pessoais e as mediações, sinais visíveis e históricos dos apelos de Deus.
Levando-se em conta tais princípios teológicos e pastorais, aparece como imprescindível o trabalho criativo para intensificar as condições favoráveis ao amadurecimento das opções pessoais fundamentado num cristianismo militante, seja no âmbito familiar, seja dentro da comunidade eclesial renovada, seja nos ambientes específicos para a formação dos vocacionados.
A vocação é um dom, sim. Mas um dom que necessita ser cultivado em circunstâncias favoráveis. A renovação e revitalização da comunidade de fé passam a ser o centro de preocupações de todos os agentes de pastoral vocacional. Valorizam-se experiências de vida que, nesse contexto, provoquem e facilitem as atitudes de compromisso pessoal e comunitário.
A essa altura, o processo de reflexão e renovação teológico-pastoral leva à redescoberta do sentido da opção pessoal como sendo o núcleo da decisão vocacional.
Desloca-se, assim, o eixo de referência do processo de educação da fé, cujo ápice é a opção vocacional. O dom gratuito de Deus, existente em qualquer chamado, é envolvido pela estrutura de compreensão do ato e da atitude de quem dá a resposta. É nesse ir e vir dinâmico da opção pessoal, num contexto favorável de sinais históricos da manifestação da graça (apelos), que se compreende melhor o mistério da vocação.
A partir dessa perspectiva, a preocupação dos educadores e promotores vocacionais começa a redescobrir o trabalho de educação da fé em comunidade como de fundamental importância para o êxito do trabalho pastoral.
A vantagem dessa perspectiva foi levar à descoberta de que toda a pastoral deveria ter um forte apelo vocacional. Qualquer trabalho pastoral deveria levar à consciência de que não se trata, simplesmente, de convocar pessoas para fazer tarefas na Igreja. O agente de pastoral, qualquer que seja ele, não é um mero técnico e nem mesmo um funcionário burocrático. Ser agente na Igreja significa ouvir o apelo de Deus, dar a sua resposta pessoal e considerar-se verdadeiramente um vocacionado. Essa atitude é tão importante quanto imprescindível, especialmente para aqueles que se sentirem chamados para o sacerdócio ou para a vida religiosa.
Desenvolve-se, nesse sentido, uma nítida consciência da dimensão vocacional, inerente a toda e qualquer Pastoral. Esse foi o resultado mais significativo e prático na execução do processo de planejamento e dos projetos de reflexão da Pastoral de Conjunto.
O trabalho conjunto da pastoral vocacional com a renovação da pastoral catequética fez perceber a importância de se prestar atenção às etapas de amadurecimento psicológico da opção: infância, adolescência, juventude.
Como desdobramento da estrutura dialogal da vocação, centrada agora no aspecto da opção, percebeu-se que há um momento decisivo na manifestação dessa opção: é a juventude.
“Juventude, idade de opção” foi o lema elucidativo de uma etapa desse desenrolar histórico da pastoral vocacional. Nessa etapa recuperou-se muito a importância de centrar o trabalho vocacional nos grupos emergentes de pastoral de juventude.
O anúncio das vocações específicas (sacerdócio, vida religiosa consagrada e leigos em geral), explícito e provocativo, passa a ser uma preocupação dos educadores da fé, particularmente os diretamente ligados ao trabalho com grupos de jovens.
Ao longo dessa caminhada, surgiu uma outra vertente que começa a estar bem presente no horizonte da pastoral. A personalização e a diversificação das opções, juntamente com as experiências renovadas de formação e as nascentes comunidades eclesiais de base (CEBs), colocaram a questão de novos ministérios e a sua diversificação.
Estavam lançadas, assim, as bases necessárias para uma ampla reestruturação da Igreja a partir da consciência de pertença ao Povo de Deus, conforme a visão da Lumen Gentium: uma Igreja vivendo na sua base a experiência de expansão do seu serviço evangelizador, salvífico e libertador, dirigido a toda humanidade. Igreja com consciência de ser uma instituição, sim, porém onde servir se torna, não um privilégio, mas um dom humilde e uma resposta pessoal.
Surgiu, então, a questão da diversificação do ministério presbiteral e, conseqüentemente, das diferentes maneiras de sua formação. A nova situação colocou a questão de como formar os novos presbíteros, mais próximos da vida e realidade do povo e das comunidades. Uma busca de novo estilo e nova identidade do padre naquilo que tem de essencial como ministro de Cristo, ministro da sua caridade pastoral, diante de um amplo esforço de renovação e desafios.
A partir de 1971, a reestruturação da renovação pastoral, assumindo as seis linhas como referencial, faz do setor de vocações um único com o de seminários. Isso revela um esforço para se evitar a solução de continuidade entre a opção vocacional e a formação.
Passaram-se os anos. Algumas perguntas desafiadoras colocam-se diante de nós:
Teria havido um retrocesso no trabalho de promoção vocacional, amplamente inserido num processo de educação da fé e militância cristã, quando se interrompeu o processo de diversificação das estruturas de formação e de espiritualidade (pequenas comunidades populares, teologia pastoral)?
Até onde penetrou a consciência de que toda a pastoral tem uma dimensão vocacional?
Por que as vocações mais militantes, mais ligadas à cultura moderna urbana, nascidas de diálogo da fé com situações limites ainda têm pouco espaço e poucas são as pessoas preparadas para acompanhá-las?
Por que cada vez mais se reforçam as estruturas de formação do tipo clerical, acentuando-se os privilégios?
Espera-se que este retrospecto histórico, que nos faz voltar um pouco às origens da renovação da pastoral vocacional, ajude-nos a responder, com clareza e decisão, a estas e outras questões presentes.
Pe. Virgílio Leite Uchôa
Pároco de Nossa Senhora Mãe dos Migrantes
Sobradinho, DF – virgilio@gns.com.br
[1] Pe. José Oscar Beozzo, A Igreja do Brasil - De João XXIII a João Paulo II, de Medellín a São Domingos, Editora Vozes, Coleção Igreja do Brasil, 1994, pág. 119: “Medellín vai operar uma sutil passagem de tom e de conteúdo ao deslocar o acento do desenvolvimento para a libertação, acrescentando à dimensão econômica e social, uma nítida tomada de posição teológica e política”.
Cf. também Pe. João Batista Libânio, S.J., “Medellín, trinta anos depois”, “Convergência”, abril de 1998, pág. 143-154.
[2] Maurice Lemoine, “Ces prêtres qu’on assassine”, em “Manière de voir” – Le Monde Diplomatique, nº 36, nov/dez 1997, pág. 75.
[3] Cf. sob o aspeto jurídico institucional, Pe. Gervásio Queiroga “Conferência Nacional dos Bispos do Brasil”- Comunhão e Co-responsabilidade- Ed. Paulinas, 1977
[4] Cf. Maria Carmelita de Freitas, “Uma opção renovadora - A Igreja no Brasil e o Planejamento Pastoral - Estudo genético-interpretativo”, Coleção Fé e Realidade, nº 36, Edições Loyola, 1997.
[5] O processo de renovação foi amplamente conhecido pelo nome de “aggiornamento”.